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17/03/2006 12:05 oscarbfilho@yahoo.com.br Tinha que ser
Desconfiei quando o carro à minha frente deu pisca para a esquerda. Só pode ser, pensei, só pode ser. Não havia rua à esquerda. Nem garagem, a não ser que o automóvel estivesse com o radiador vazio, quisesse voar para as mesas do Malman e pedir uma cerveja gelada. Ai meu deus, vai dar problema. Meio da Ramiro, hora do rush. Eu, como sempre, com pressa. Mas pressa no trânsito, às seis e poucas da tarde, é algo subjetivo. Na Ramiro, então, um conceito surreal de impossibilidade locomotiva. Tudo bem. Antes chegar tarde, mas vivo, já diz a cartilha. Paciência. Então, depois do pisca pra esquerda virar pisca pra direita, voltar a ser esquerda e enfim se firmar como direita - parecia até o Lula -, o carro parou. Assim, sem mais nem menos. E eu tive que afundar o pé no freio, também de repente, para não bater. Rezando instantaneamente para que o caminhãozinho atrás de mim parasse a tempo de não me esmagar a traseira. Pelo retrovisor, vi o pára-choque preto corcoveando a menos de um centímetro do meu carro e chiando os freios. O Doutor Tessuto é que devia me ver, ali. Coração aprovado, definitivamente.
Só pode ser mulher, resmunguei, indignado. Meu amigo Tabajara é que diz, implacável: mulher de carro, ato bizarro. Mulher no volante, perigo constante. E ele ainda lembrou disto justo no oito de março, a gente comprando flores pras homenagear as colegas de trabalho. Pô, Tabajara, nem sempre, argumentei. Tem mulher cuidadosa, craque no volante. Tem mulher até piloto. Olha a Débora Rodrigues, da fórmula Truck. Ele deu de ombros, essa aí deve ser sapatão. Ah não, Tabajara! Preconceito não. Pois lembrei do Tabajara, naquele instante. Só podia ser mulher, só podia. E eu ainda defendendo.
O carro fez um malabarismo, deu uma guinada à esquerda, depois à direita, ré, entrou enviesado num espaço vago do estacionamento onde mal cabia uma moto e parou, talvez para pensar. Veio uma buzina impaciente, que vinha lá de trás. Olhei pelo retrovisor e a fila de carros já trancava a sinaleira da Santos Dumont, interditando o Mombach e o Hotel Ibiá. Mais cinco minutos e estaria na rodoviária. Buzinei também, perdendo a paciência, contaminado pelas impaciências em mim acavaladas. O caminhãzinho resolveu se solidarizar e buzinou com tudo. Quase gritei de dor no ouvido. Ai meu deus, ai meu deus!, vou me mudar pra Vapor Velho. Pois o carro saiu de onde estava, cortou a avenida como se fosse fazer retorno, deu outra ré, fez um semi-círculo, foi pra frente, pro lado, outro lado, voltou, tentou, arremedou e caiu na mesma posição enviesada trancando tudo. Então apagou. Corcoveou e apagou outra vez. Acelerou e saiu uma fumaceira. Aí cantou pneu e se mandou, desistindo.
Pude finalmente me mover, mas não me senti aliviado. Enfim, aquela motorista continuava exatamente na minha frente. E nem espaço para o caminhãzinho me ultrapassar. Segui, torcendo para que dobrasse na Osvaldo Aranha. Não dobrou. Só foi parar na farmácia Mottin. Então reduzi, curioso para ver se era loira ou morena a causadora da confusão. Quase parando, esperei a porta do motorista se abrir. Queria lançar meu olhar de censura, e dependendo de quem fosse, até uns desaforos, pra desopilar o susto do caminhãozinho corcoveando na minha traseira. Mas senti que conhecia a figura antes mesmo do corpo todo desembarcar.
Um instante depois, o Tabajara mostrava a cabeçorra e me abanava, constrangido.
Fui embora. Tinha que ser, pensei. Tinha que ser.
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10/03/2006 19:55 O Consumidor daqui e a dor de consumir
Outro dia alguém me alertou sobre as dificuldades no atendimento ao público em Montenegro. Capaz, retruquei. Os tempos são outros, a cidade cresceu, olha aí o progresso, e mostrei as calçadas lotadas de gente, enquanto a moça do estacionamento rotativo anotava a minha placa sem ao menos me oferecer um bom-dia. Detalhes, detalhes. Entramos numa loja. Eu precisava comprar algo e tinha pressa. Audiência no fórum. Para meu alívio, a loja estava vazia.
Duas moças atrás do balcão. Uma ao telefone e a outra, uma loira com piercing no nariz, colava gravuras da Hellow Kit na agenda rosa. Nada contra loiras e piercings, claro. Nem contra Hellow Kits em agendas rosas.
- Só um minuto.
Quem falou foi a loira, séria, mal me espiando de canto de olho. A outra ria ao telefone. O baile do Grêmio, o Zuca que ficou com aquela piranha da Marinha. Sábado que vem ele vai ver, fico com o Téco, ah se fico. Tamborilei no balcão.
- Vocês tem...
Agora foi a do telefone que me interrompeu com um gesto, pedindo que esperasse. Pigarreei, inquieto, tentando demonstrar minha pressa. Nada. O Téco, aquele da moto azul, cabelo igual ao do Felipe Dylon. Pensei em perguntar quem era o Felipe Dylon para ver se ganhava atenção. Mas foi aí que surgiu uma senhora, certamente a gerente ou dona do estabelecimento. Cheguei a suspirar, aliviado. A loira escondeu as figurinhas embaixo da agenda e a outra, ao telefone, olhou para trás e passou a falar sobre prazos de entrega, o senhor precisa atentar para nossos prazos, e desligou. A mulher advertiu as duas sobre a conta de luz que estava lá nas alturas, desse jeito ia acabar demitindo alguém. Olha aí o ventilador mandando vento pro nada, que absurdo, mais rádio, computador, e aquela lâmpada lá atrás, quem esqueceu acesa? De quem é o celular carregando? Que absurdo, que absurdo. E resmungando, sumiu pela porta dos fundos. Nem me viu.
As duas ainda ficaram conversando baixinho, certamente sobre a mulher e quem seria demitida, ou sobre o Téco com cabelo de Felipe Dylon, ou a piranha da Marinha ou até sobre as Hellow Kits da agenda rosa. Sei lá. Mas nada lembrando da minha existência ali. Perdi a calma e bati palmas, pô, estava com pressa, será que podia ser atendido? A loira voltou para suas figurinhas e veio a do telefone, com cara de enterro. Que tu quer?, mandou, com uma voz que mais parecia um chute no estômago.
Expliquei. Soletrei nomes e marcas. Hein?, ela quase gritou. Repeti. Não, não tem, ela decretou, sem ao menos se mover para procurar ou pensar no meu pedido. Vou noutra loja, decretei, veemente, na esperança de que a dona, lá nos fundos, me ouvisse. Meu companheiro então mostrou o relógio. Estava atrasado. Que outra loja o quê.
Para completar, no carro, uma pilha de papéis me cobrando o estacionamento rotativo. É o progresso, resmunguei. E me fui ao fórum. Confesso, sentindo uma saudade inédita da minha velha Montenegro.
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07/03/2006 20:10 Cena de Carnaval
Coincidência devia ser proibida por lei. Ou estar no oitavo pecado capital. Tanto clube na cidade pra pular carnaval e o chefe escolhe justo o Grêmio Gaúcho, justo na noite em se vestiu de pirata do caribe. E, justo na hora em que vai comprar mais uma cerveja, o chefe também vai.
- Cledineison?
Agora é tarde, reconheceu. Mesmo com tapa-olho, purpurina e colar havaiano enfiado no nariz.
- Ahn, hein?
- Cledineison, é você?
O samba continua. O barman se debruça no balcão, apressado:
- Pro senhor?
- Claro que é você, Cledineison!
- What?
- Pro senhor? Outra cerveja?
- Cledineison, você não estava doente?
- Vai ou não vai uma cerveja?
- Quem? Eu?
- E aquela doença de nome estranho, Cledineison?
Squindô-squindô.
- Ô Cledineison, libera aí o balcão!
- Viu? Viu? É você, Cledineison, nem vem que não tem.
- Claro que é o Cledineison! Todo ano ele vem de pirata.
- E todo ano mete o mesmo atestado frio lá na firma, né Clê?
- Cledineison!!
Xicundum, zirguidum.
- Pô, cara! Vai ou não vai querer a cerveja?
- Cledineison, justo você, meu braço direito!
- Sim, sim!
- Sim?
- Quero dizer, não, não! O sim é pra cerveja.
- Não acredito, Cledineison! Atestado frio?
- Meu, libera aí o balcão!
- Chefe eu...
- Tá Cledineison, se não sai na boa, sai na marra.
- Empurra ele!
- Olha o trenzinho aí gente!
- Cledineison, você está demitido!
- Chefe, não, por favor!
- Grande, Cledineison! Que passo maneiro é esse?
- Está fora, Cleideneison. Fora!
- Isso aí, sai fora e puxa o trem!
- Chefe, por favor, vou explicar!
- É! O chefe que vá se catar!
- Nãooo!
- Alalaô-ô-ô!
- Demitido, Cledineison. Demitido! E nem vem com essa cerveja, nem vem!
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24/02/2006 15:23 Tolerância Zero - Episódio 2
A FAMÍLIA
No comportamento humano, estudamos que a família é o berço de tudo. E é. Por isso temos estudos comprovando que a grande e esmagadora maioria dos desajustes comportamentais têm origem no berço. Famílias desajustadas - e não estamos falando aqui de miserabilidade apenas, ou simplesmente - estamos falando de desajustes, comuns em qualquer classe social - geram indivíduos moralmente deturpados, comportamentalmente agressivos e revoltados, além de dificuldades no convívio e aceitação das regras.
O que pretendemos dizer é que, nos estudo da psicologia humana, aprendemos que já na primeira infância há na necessidade de que a criança perceba e identifique limites. Ali começa a sua noção de respeitabilidade ao que o cerca. Pulando esta fase, sem as necessárias induções comportamentais, teremos no resultado alguém com dificuldades em reconhecer o seu próprio limite, invadindo o do próximo, e gerando conflitos. Não estamos, aqui, falando de palmadas. Qualquer pai e mãe racionais saberão que dar limite não é agredir. Ao contrário, a agressão gerará muito mais malefícios do que obediências.
Em seguida temos o aspecto da impunidade. O grande erro dos pais, e que assistimos como algo extremamente comum em todos os níveis, é o aceitar o erro como normal, passando a mão por cima e gerando uma sensação de "nada aconteceu" ao filho. A fuga da regra aparece como natural e despreocupante. Nas classes de maior exclusão, os pais permitem o desvio de conduta e o aceitam como desígnio divino ou vingança aceitável contra o Estado que os oprime. Nas classes mais abastadas, em defesa de um nome ou suposta respeitabilidade, há a compra da impunidade com os recursos de defesa máximos ao filho, quando não gerando uma corrupção direta. "Passar a mão por cima" gera uma cadeia ininterrupta de malefícios sociais advindos do comportamento do infrator. Ninguém ama menos um filho por tomar a devida atitude para com ele. O mundo é complexo e múltiplo e o desvio das regras gera conseqüências que todos devemos estar prontos para receber. Inclusive nossos filhos, por mais que os amemos. Ou, então, estaremos correndo o risco de gerarmos um mal maior e irremediável não só para nós e para eles, mas para nossos amigos e nossa sociedade.
Então nos deparamos com pais e mães defendendo estudantes revoltados, vândalos, viciados, ladrões, traficantes, motoristas de pegas, corruptos, desaforados, agressores e tantos outros que apenas em seu desvio comportamental injustificado condenam todo um contexto de convívio social, semeando a intranqüilidade, a discórdia e a violência.
A impunidade familiar é o berço da impunidade social e estatal. Tolerância Zero com nossos filhos não é nenhum radicalismo ideológico à base de agressões físicas ou proibições retrógradas. Ao contrário, é o respeito de sua independência enquanto ser livre, capaz de consciência própria, que reflete sobre os resultados de seus atos e colhe exatamente aquilo que plantou. Que é capaz de agüentar o repuxo de seus desvios, e o malefício que este causa ao grupo todo, não apenas a si mesmo. A sociedade pacífica começa da convivência com as regras necessárias, sabendo de sua existência e de seus propósitos coletivos. Um filho que sabe de seus limites é um filho que ama a liberdade. E que sabe, exatamente, que onde começa a liberdade de outro termina a a própria.
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30/01/2006 18:32 Porque Precisamos do Tolerância Zero
Há muito que discutimos, no meio profissional ou entre amigos, a necessidade de um programa ao estilo Tolerância Zero no Brasil. Sim, teríamos que guardar as devidas proporções com o que foi realizado em Nova Iorque, até porque vivemos em realidades totalmente diferentes. Temos histórias diferentes e nossos panoramas sociais e culturais são bem distantes. Entretanto, há uma essência similar que é o cerne da questão: o descontrole da violência, o crescimento da vantagem de se andar à margem das leis e a degradação moral que se alastra, enfiando a juventude numa maré perigosa de falta de perspectivas e exemplos apodrecidos. E o crescimento dos problemas, a multiplicação das variáveis e das possibilidades de violência, a insegurança enquanto paranóia coletiva e falta de atitude positiva dos governos, somado a uma crescente onda de esmolas paliativas que são encaradas como grandes e convenientes atitudes eleitoreiras, trazem uma preocupação tremenda a quem deseja um mundo decente para seus filhos e netos.
É precise que as comunidades se organizem e se mobilizem. Que criem seus mecanismos e exijam ações dos aparatos públicos que já existem. Que coloquem na paredes políticos, policiais, juízes, promotores, secretarias e órgãos de saúde, educação e infra-estrutura. Que se chame á responsabilidade aqueles que estão assistindo o mundo ruir de sua sala com ar-condicionado e asseclas para lhe servir cafezinho ou água gelada. Que se cobre exatamente onde para a fortuna que tiramos de nossos bolsos tosos os anos o ano todo e que nunca se vê aplicada em lugar nenhum afora paraísos fiscais. Que se repense modelos de gestão pública e se passe a repudiar legislações excedentes, métodos confusos e linguagens que ninguém entende explicando a miséria em que vivemos.
Precisamos ter tolerância zero com o mínimo desvio de comportamento. Com a mínima vidraça quebrada. Com o mínimo desrespeito de quem esta do nosso lado. Com os vereadores, com o prefeito, com o governador e com o presidente. Precisamos ter tolerância zero com os organismos internacionais. Com tudo. Refutar explicações, ir à últimas e máximas conseqüências pelo mínimo que houver e nos agredir. Assim, conseguiremos, talvez, elaborar uma reconstrução do mundo que retalhamos sob omissões e corrupções.
A seguir, aqui no Diário de Montenegro, publicarei uma série de atos que necessitaríamos num programa Tolerância Zero total. E peço a interação dos leitores, as críticas, a participação, a soma, a sugestão, a discordância ou o apoio.
Nossa morte, enquanto cidadãos, começa a cada palavra que se cala em medo ou desesperança.
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28/12/2005 18:14 Prova 3 - Diário de Adão, oitavo dia.
Percebi ao ouvir aquela ordem, algo estava errado. Desde o início. Ele não sabia mais exatamente o que fizera. Nem o que deveria ser feito, dali em diante. Que mundo pretendia, o porquê de estarmos ali. Estava visivelmente irritado. Perdido. Inverteu a ordem, determinou o absurdo, perdeu sentido. Antes, nos apresentava um novo mundo, entusiasmado. Agora, era todo ódio, repulsa. Criou a tal regra unicamente como pretexto para nos expulsar. Sabia exatamente onde falharíamos, onde qualquer humano falharia. Desprezou nossa defesa e se precipitou, desconsiderando as circunstâncias. Talvez tenha acreditado demais em si próprio, sem perceber que as mentes novas haviam chegado, por sua própria escolha. Então elas pensariam por si, isso era inevitável. E teriam, talvez, decisões mais adequadas para seu destino do que aquilo que ele nos apresentara como fechado e pronto.
Não estava preparado, esqueceu de calcular os riscos inerentes a quando se deixa de caminhar sozinho. Nada mais é feito apenas seu. Mesmo que a idéia inicial fosse sua, que o começo de tudo tenha sido um trabalho longo, árido e totalmente seu. Não queríamos negar nada disso. Apenas fizemos que visse que, a partir de quando não se está mais sozinho, de quando se convida alguém para festa, o outro passa a importar. E muito. Não posso crer que ele tenha ignorado a racionalidade.
Entendo, algo não deu certo e fugiu ao seu controle. Quando tentou remediar, era tarde. Se tivesse me dado chance, eu o alertaria sobre o equívoco. Teria apontado caminhos mais eficazes. Mas quem o conhece, sabe como acostuma agir. Faz tudo sozinho, faz tudo do seu jeito. Veta sugestões, argumentos. Ele é absoluto, sempre foi. O tal novo mundo, enfim, era seu. Só seu. Com todos os seus segredos divididos jamais.
Entre ameaças e desconfianças, preferiu a imposição pelo temor. Até hoje o vejo agindo assim, mesmo com muito mais gente para se preocupar. Gosto dele, apesar de tudo. Nunca contestei suas ordens, é mentira o que dizem. Tampouco pensei em desafiá-lo propositalmente. Apenas quis saber do que estava escondido, e o porquê de estar escondido. Se estou num barco, e o vejo ao sabor das águas, quero saber do capitão o que há, e se temos chances, ainda, de não naufragarmos. Estava na cara que afundaríamos, bastava prestar atenção no modo estúpido como fomos jogados na cena, como figurantes, nossos passos prisioneiros de suas esquisitices.
Porém, ele quis que o mérito fosse unicamente seu, o naufrágio ou a salvação. Ficou fulo com meu desafio. Tudo bem. Pago com a minha expulsão.
Mas ainda o amo. E o perdôo.
(continua...)
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16/12/2005 10:01 Retratos
Precisava tomar uma atitude. O que a outra tinha de tão especial? O cabelo? Pode ser, tem homem que é obcecado por loira. E os dela eram curtos, o contrário dos seus. O corpo? Dificilmente, eram quase que da mesma altura e peso. Talvez fosse fumante. É isso, o Cláudio fumava. Desde adolescente. Tiveram algumas brigas por causa das bitucas jogadas no pátio, ou pela fumaça fedendo na casa inteira. Nunca fumara na vida, mas podia começar, que é que tem. O Ministério da Saúde não advertia sobre o seu casamento estar por um fio.
Apanhou a bolsa, decidiu comprar um maço de cigarros. Queria ver a cara dele, quando chegasse.
Descobrira por acaso que por marido tinha uma amante, outra vez. Odiava ir ao shopping, mas precisou comprar o creme contra a alergia do filho logo numa farmácia que só tinha lá. Ao cruzar a praça de alimentação viu aquela cena, Cláudio com a outra, agarrado, trocando beijinhos. Após o susto e a vertigem, ficou espiando os dois, de longe. Compraram sorvetes. Saíram dali direto ao cinema. Quase desmaiou. Ele não a levava ao cinema há mais de cinco anos.
Eram colegas de escritório, descobriu, no dia seguinte. Pouco mais jovem que ela, freqüentava uma academia da zona sul - será que era o Cláudio quem pagava? - e gostava de usar saias curtas e blusas decotadas. Indignada, foi até uma loja de roupas jovens e fez um rancho. Olhou-se no espelho. Nunca vestira algo que deixasse as pernas tão à mostra. Fez pose, como se estivesse no sofá quando o Cláudio abrisse a porta, à noite. Acompanhou o desenho da própria coxa, era importante aparecer a calcinha. E se depilar.
Com o cigarro aceso entre os dedos, então, perfeito.
Levou a mão à testa, quase ia esquecendo. Apanhou um caderno velho, folheou as páginas, nervosa, onde tinha anotado aquele maldito telefone?
"Mirela? Ainda tem horário pra hoje? Quero cortar tudo. Não, menina. Não enlouqueci. Depois te explico."
Agendou a cabeleireira. Às quatro. Dava tempo. Queria ver a cara do Cláudio, quando chegasse. Queria vê-lo resistir, queria ver ele não desejá-la.
Ligou outra vez.
"Só mais um detalhe, Mirela. Tem tinta loira?"
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06/12/2005 10:05 NATUREZA Pensava nessas coisas de amizade. De confiar.
"Espero que não te cause problemas, Gil."
Naquela tarde resmungou que estava tudo bem, querendo dizer que não. Eram amigos, enfim.
"Ela vai estranhar, só isso. A televisão pifou."
Queria ter dito outra coisa, quando a viu entrar, sacola de roupas na mão.
Uma nuvem encobre a lua crescente. Tudo está aqui, por mais que se tente esconder, pensa, e enfia as mãos nos cabelos, nervoso.
"Pode chover amanhã."
"É."
"Gosta de chuva?"
Nem sabe por que perguntou aquilo.
"Depende."
Há uma brisa qualquer que refresca a alma, apesar do mormaço.
"Depende do quê?", insiste, e se arrepende.
Ela não responde. Brinca com uma margarida entre os lábios. A boca é carnuda, há um vermelho de sangue e posse que o chama.
"Gil, deixo com você porque é meu amigo. "
Calcula a hora. É tarde. Ou ainda é cedo, muito cedo.
"Sabe, depois do assalto..."
"Eu sei."
Ela faz bem-me-quer, mal-me-quer. Em quem estará pensando?
"Pensei até em vender o caminhão. Mas não tem jeito, dependo das entregas."
Cães surgem na calçada, vindos do outro quarteirão. Um grupo de machos, atrás da fêmea que tenta, ou finge que tenta, escapar. A natureza pede, os passos dela diminuem. Bem na frente deles, um vira-lata de pêlo ralo joga o corpo sobre a cadela e começa a arfar. Ela pára e os outros olham, uns abanando o rabo, outros rosnando. Esperam a sua deixa. A fêmea encolhe o corpo, os olhos fechados de prazer. Tem coleira, é limpa, de raça. Deve estar longe de casa. Mas está feliz. Os cães se revezam. O cheiro do amor animal chega acre, perpassando denso o calor que os envolve.
Ela ali, ao lado, absorvida pela cena, os lábios entreabertos. Sente seu hálito, os pelos de suas coxas.
"Gil, cuide de minha filha como se fosse tua. Sábado que vem, no máximo, estou de volta."
Tenta desviar os olhos das pernas expostas através da pequena saia cortada. Mais dois dias, ainda.
Dois dias. E duas noites.
Dois cães rosnam.
Ela joga a margarida no chão, sem as pétalas, perto da cadela que nada vê. E o encara, sorriso vermelho, sorriso saliva.
Atrás deles a casa, insone, estremece, precisando respirar.
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24/11/2005 12:20 Debates para a Feira 2006 Para que não se repita a correria de última hora, assistida neste ano, é preciso que pensemos, desde já, na nossa Feira do Livro de 2006. Há uma idéia, cogitada pela Diretoria de Cultura, de que a AMES possa assumir o evento, com apoio do Poder Público. Não a considero de todo inviável, uma vez que quem organiza a feira de POA é a Câmara Rio-grandense do Livro. Vale frisar: com apoio do Poder Público. Montemos, então uma Comissão Municipal do Livro. Ou um Instituto Municipal do Livro - algo que já defendo há algum tempo, um órgão que não precisaria de mais do que uma pessoa - afim e "a fim" - com a missão de conduzir as políticas do livro, como aquisição de obras de autores locais pela SMEC, fomentação de publicações, concursos e outras formas de estímulo à literatura local. A AMES não se furtará de liderar aqueles que estarão decididos a abraçarem a causa da feira, ou qualquer causa referente à literatura e o livro. Mas é preciso existir afinidade e pleno interesse de todos que estiverem nesta mesa para que a Feira seja algo digno, decente e, acima de tudo, popular. Não aceito compor mesa senão com gente no mínimo interessada no crescimento da causa em nossa cidade.
Das idéias que defendemos para a próxima feira, as principais são as alterações de local e data do evento. Não podemos ter feira paralela à de Porto Alegre, não temos condições de competir. E não podemos ter feira na Usina. Lá assistimos a uma feira colegial, isolada, deslocada do eixo. E Feira do livro para intelectualóides se locupletarem batendo fotos da paisagem ou tomando chimarrão, não é feira do livro. Precisamos pensar nos livreiros e nos leitores, essencialmente. Os primeiros precisam vender, os últimos merecem a chance de comprar. E não há como estimular ofertas se não houver competição de livrarias, opções, possibilidades de redução de preço. Aí temos feira. Agora, o que assistimos neste ano foi apenas um passeio entre livros. Turismo, não literatura. Não feira.
Temos dois locais possíveis. Um, do ponto de vista estético, seria o ideal para eventos de grande porte e tudo o que sonhamos em termos de atrações numa verdadeira feira do livro: o Parque Centenário. Entretanto, ingressa no mesmo pecado da Usina - é fora do centro. Deixa de ser popular. Exige acesso um pouco mais complicado. Mas oferece uma série de vantagens como possibilidades de praças de alimentação, pavilhão de autógrafos, palco de eventos, estacionamento fácil, etc. Outro, aí dando mais uma cara de feira do livro em essência, é a Praça Rui Barbosa. Inserida em meio ao pulsar econômico da cidade, para os livreiros seria o lugar ideal. O local das possibilidades de vendas e ofertas. Porém, há que se fazer um estudo detalhado de determinados impactos, estruturas e montagem de eventos no local. Estrategicamente perfeito, mas exige soluções criativas.
Quanto à data, penso que nada melhor do que a primeira semana de outubro, quando, em paralelo, acontece o Seminário de Arte e Educação. Aliás, fica aí a possibilidade de uma junção de esforços e atrativos. Não acredito em competição de eventos, isso é argumento de gente burra, mesquinha ou megalômana. Nem em prejuízo com oktoberfest da região, são coisas distantes e distintas. Ao contrário, há como fazer uma soma aproveitando estes paralelos, mais o Dia da Criança que pode motivar pais a comprarem livros para seus filhos. E, como lembra Pedro Stiehl, há o simbolismo do início da primavera. Imaginem a Praça, como estará bela. Ou mesmo o Centenário.
A idéia foi bem recebida por Carmem, Rubem, Cristiana e Ruth, num debate informal no encerramento da Feira do Livro. E a defenderei até o último dia em que me considerarem útil ao processo. Estamos, na diretoria da AMES, já rascunhando um projeto para apresentarmos como proposta ao nosso Prefeito. Com boa vontade, é possível fazer bonito. Passamos a acreditar demais em nosso potencial literário a partir de nosso concurso em parceria com o Jornal Ibiá, cuja premiação fizemos lá na Usina, no último dia 10. Uma cidade que inscreve mais trabalhos literários que muito concurso nacional, quer ler, quer ver acontecer, quer fazer. Montenegro quer uma bela feira do livro. Nós também. Então, arregacemos mangas e idéias desde já. E construamos nosso melhor sonho.
Ou cruzemos os braços e fiquemos olhando o rio, lamentando as coisas que são como sempre foram e que morrem engasgadas na falta de competência para mudar.
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02/11/2005 11:55 Manifestação do Presidente da AMES sobre a Feira do Livro de Montenegro
Senhoras e Senhores
Lamento os episódios ocorridos nos últimos dias. O que levou a um posicionamento público e crítico, deste presidente, sobre o evento que ora se aproxima - a Feira do Livro do Vale do Caí - foram, essencialmente, dois fatores: a indignação manifestada pelos membros presentes no Café dos Escritores, realizado na livraria Nobel, em 29/10/05, e a crescente procura de informações por pessoas conhecidas - e não - junto a esta entidade, relacionando-a numa obviedade compreensível com a realização do evento.
Posamos de alienados e arrogantes, ao dizermos que nada sabíamos. E daí nasce o desgaste de uma imagem institucional que, desde que assumimos a presidência, nos preocupamos em preservar e expandir qualitativamente. Explicando que não tomamos parte da organização do evento, ouvimos reações de surpresa e inconformidade. Mas os boicotes que foram ventilados, faço questão de deixar claro, não se confirmam, até porque nenhuma das entidades envolvidas na organização do evento tem motivo para tal. Ao contrário, procuramos sempre a proximidade destes, e ela é, natural, porque ambos primamos pelo "fazer". Então, nos sentimos na obrigação moral do esclarecimento.
É claro que, se houve ruído ou falha na organização, isto provocou uma indignação geral na entidade. Os membros da AMES trabalham com sua arte - a literatura. Os livros fazem parte de nossos sonhos, de nosso sangue. Páginas abertas são a essência do conduzir de nossas vidas, eis que nada disso fazemos com outro interesse senão o de fazer acontecer. De escrever, pensar, delirar, criar, oferecer. Não ganhamos dinheiro. Não temos verba. Pagamos do bolso nosso site e nossa revista, nossos livros, nossas participações. É justo que nos sintamos, enquanto grupo, ignorados, se o maior evento que nossa querida cidade realiza justamente sobre nossa razão de ser não nos chama sequer para participar. Para sermos ouvidos. Ficamos perguntando: somos tão medícores assim, que nem nossa aldeia nos gosta? É livro, o que está em questão? Queremos palpitar, sim! É nosso carma, nossa cachaça, nosso mel. Nossa vida.
Temos nomes respeitáveis, aqui. Temos um dos 3 melhores romancistas de 2004 do RS. Temos gente premiada a nível nacional, temos Giacomelli e sua obra imensa que o RS conhece e reconhece, temos Simone Müller com suas poeisas que encantaram Quintana. Temos Simone Dörr e seu intenso trabalho com as crianças, editando livros todo ano. Temos Agne, discípulo destacado de Kiefer. O velho e batalhador Djacyr Alves, nossa querida Emma, sempre em antologias nacionais. Dona Nice e sua presença nas academias do DF. Dina e sua batalha incansável abrindo espaços. Cassiano, o poeta-arte e suas oficinas de teatro literário. Temos tanta gente boa. Temos realizado intensamente e só não fazemos mais porque precisamos dividir nossas vidas ainda com as famílias e com nosso ganha-pão. Mas criamos o site, a revista literária, estamos na TV, estivemos da Feira do Sinodal, na Feira do São João, na Feira do Walter Belian, no Programa de Auditório. E na Feira de Porto Alegre. Estamos no Café dos Escritores, na Livraria Nobel. Estamos nas rádios e nos jornais. Estamos no mundo, recebendo apoio de grupos inteletuais de POA, Rio, SP, Salvador, Brasília, Lisboa e Moçambique. A todos falamos com orgulho que somos de Montenegro. E nenhum ruído fará com este orgulho se fragilize.
Escritores já bem colocados no cenário e que são amigos pessoais têm me questionado quanto à validade pessoal do que faço. Um escritor amigo, recentemente contrado por uma grande editora paulista junto de um grupo de gaúchos, foi severo, tendo me acusado de ter feito a escolha errada, pois poderia estar ingressando com ele no grande mercado se estivesse cuidando de minha obra, não de grupos. Outro escritor, este mais próximo ainda, já havia me alertado para o risco da "burocracia literária", onde pessoalmente nada se faz. Discordo veementemente e insito que a militância é o único caminho de transformação cultural para o país. De nada me adianta ser rei caolho num reino de cegos. Prefiro todos de olhos abertos. Deixei de lançar livro neste ano, e a conseqüência é ficar de fora de diversos convites e participações onde um livro de 2003 não consegue mais penetrar. Socializar a literatura, a arte e o acesso à cultura e fomentar o crescimento. Os trabalhos do Prêmio Literário que o digam.
A parceria com o Jornal Ibiá foi mais que uma união de vontades. Foi um marco cultural histórico onde a pordução literária adquiriu níveis supreendentes. Só esta já considero a grande vitória do ano. E uma cidade que tem um veículo de comunicação disposto a fomentar cultura, é uma cidade privilegiada.
Colocamos de forma ríspida, talvez, nosso posicionamento. Mas quem conhece a história da AMES saberá que a primeira proposta de Feira do Livro na cidade nasceu do grupo de Djacyr, Hélio Alves, Guido Ruischel, Nice, Emma, Dina e Giacomelli. Nasceu com a AMES. É História. E a história não pode ser negada, bem como não se pode fazer algo da seara de algumas pessoas ignorando-as. É como realizar um festival de música sem falar com Paraguaio. De dança sem falar com Flávio Azeredo. De teatro sem falar com Éverton e Cassiano. Assim vai.
A questão do patrono, não sabíamos. Pensávamos apenas que ele não compareceria na abertura. Não imaginávamos que fosse assim, tão forte, o desencontro.
Estas questões trouxeram um lado positivo. Felipe, sempre Felipe, me ligou, lutando para inserir a AMES de alguma forma na programação da Feira. Felipe, que batalhou pelo encontro histórico de Percival com Pedro e a AMES, abrindo um canal franco para a literatura montenegrina. Sim, foi em cima da hora. Mas, por Felipe, por Percival e por Montenegro, vale a pena.
O SESC também se manifestou. Flávio Azeredo é um artista e um produtor de eventos acima de qualquer contestação. E Pâmela, a encarregada da produção do evento, lamentou profundamente a falha. E entendemos que uma pessoa com as atribuições que recebeu não teria condições de dar conta de tudo. Ainda frisou que havia alguém encarregado deste contato, e não o fez. Eticamente, não declinou o nome. O importante é que também batalhou pela reconstrução.
Rubem Hermann é um intelectual. Um homem brilhante. E talvez uma estrutura maior o ajudasse. Embora seu nome esteja em jogo, não podemos sacrificá-lo, ignorando uma obra. O que aconteceu foi uma sucessão de pequenas falhas, pequenos equívocos, que não tiveram a devida atenção para se corrigir. E chegaram onde assistimos. A AMES arruma sua parte e entra com entusiasmo. A questão do Patrono é que prejudicou bastante a imagem de nossa cidade. Uma imagem que nós, da AMES, tentamos elevar ao máximo, mostrando o que há de bom. Tomara que o futuro nos ajude a reparar o feito.
Só não aceitaremos a ameaça velada e os alertas que recebemos, nestes dois dias, dizendo que, ao criticarmos, perdemos apoios futuros, geramos rompimentos e etc. Nada foi além da postura profissional, de escritores e de uma entidade criada chama "feira do livro". Nada com as pessoas. mas, se assim, for, aí a coisa se torna pessoal. E, se for algo contra a minha pessoa, em particular, sugiro que alguém escreva. Então me afasto da AMES e cuido da minha vida, contanto que os apoios ao grupo continuem - ou iniciem -, para que a AMES, então, possa crescer. Porque aí, se nada acontecer, e sabendo do calibre das pessoas que temos, seremos muito mais contundentes quando criticarmos.
Ontem tivemos dois momentos gratificantes: na Feira do São João, a participação entusiasmada de adolescentes que sabem exatamente o que se está fazendo, através da AMES, e querem fazer também. Na sessão de autógrafos da Feira do livro de Porto Alegre, pessoas que nunca vimos declinando nosso nome e perguntando sobre Montenegro, sobre a Revista Calabouço, sobre a AMES, sbore nossos livros. Nada melhor que este retorno. Mas ele deve começar por aqui.
Nossa intenção, ao contrário do que possam ter interpretado os mais entusiasmados ou facciosos, não foi de gerar disputa de beleza ou destruir um evento. Apenas reivindicamos respeito e espaço a um grupo de pessoas. Quando um de nossos autores voltou do SESC dizendo que não teríamos espaço e isto era pedra posta, foi duro. Mas, enfim, tudo está tomando seu lugar. Não podemos nos exasperar.
Há um lugar logo adiante onde talvez possamos construir algo belo. Para tanto, precisaremos da união de todos. E, se alguém considera que sua ajuda pode ser muito amis qualificada ao grupo de escritores se minha mão for retirada dos abraços, fale. Eu saio, pelo grupo.
Queridos. Montenegro pode ser, sim, a Cidade das Artes. É algo que deve morar, primeiro, em nossos sonhos. Depois, em nossos melhores desejos, aquels por que a gente luta. Por fim, em nossos atos. Concretos. Não somente em discursos.
Construamos!
Um forte abraço
Oscar Bessi FilhoPres. AMES
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